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domingo, 20 de setembro de 2026

Impressões literárias - Carta ao Pai, de Franz Kafka*

 


 

"Minha atividade de escritor tratava de ti. Nela, eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto a teu peito".

Franz Kafka, em sua Carta ao Pai

 

Acredita-se que Franz Kafka decidiu escrever a missiva, que seria eternizada na literatura universal como "Carta ao Pai", depois de uma recepção indiferente do Sr. Hermann Kafka ao filho, que na ocasião apresentava a noiva Juli Wohryzek, com quem almejava se casar.

A "Carta ao Pai" teria sido escrita entre os dias 10 e 19 de novembro de 1919 e nela o autor de "A Metamorfose", "O Processo" e outras obras eternas passa a limpo uma relação intrincada, dolorida e permeada de sofrimentos e angústias por parte de Franz Kafka.

A carta se estendeu por quase cem folhas manuscritas e nela episódios da relação conflituosa são retratados desde a tenra infância até a fase adulta do escrito tcheco.

Hermann Kafka foi um comerciante judeu que prosperou em Praga, possibilitando à família uma condição razoavelmente confortável. Denota-se pela obra ter uma personalidade forte, com traços autoritários, mas com presença familiar e sentimento de cuidado e responsabilidade, sobretudo material, quanto ao seio familiar.

Não se vislumbra, em sua relação com a prole (Kafka tinha mais três irmãs), uma relação amorosa ou minimamente afável. Conquanto tenha propiciado conforto material a relação de Hermann, sobretudo com o filho Franz, revela-se incapaz de propiciar um mínimo conforto espiritual ou emocional ao filho.

Transparece que o ser Franz Kafka emerge perante seu genitor como uma pessoa desprovida de qualidades, de méritos, inábil mesmo para seguir na atividade do comércio, onde muitos judeus se destacam com primor (vem desta percepção de Kafka a sua "fuga" para o direito e para a burocracia estatal).

A carta pode também ser vista como um desabafo. Mas não um desabafo vulgar sendo, antes, um inventário metódico e cronológico de uma relação frustrante e angustiante, sobretudo na avaliação filial, onde cada evento relevante da relação pai-filho é pontuado e enaltecida sua consequência deletéria à existência de Franz.

É notório como na obra Kafka faz comparativos diversos entre ele e o pai, seja no aspecto físico, comportamental, espiritual, psicológico sempre concluindo pela sua debilidade diante da figura paterna, vista como forte e autoconfiante.

A palavra culpa é muito recorrente na obra. Nela Kafka traduz toda a frustração por não corresponder a qualquer dos anseios paternos com respeito à sua pessoa. Seja a sua atividade de comerciante, seja sua compleição física, seja sua relação com o judaísmo enfim, em nenhum aspecto a existência de Kafka se revela interessante aos olhos paternos. Tudo relativo ao filho ganha antipatia do pai. Uma amizade ou uma relação social ou amorosa já atrairia, para a pessoa com Kafka se relacionasse, a intensa aversão paterna.

Honestamente, não acreditamos que Kafka tenha escrito a carta para entregar ao pai. A indiferença que o pai nutria pela existência do filho impediriam o Sr. Hermann de consumir horas de sua vida na leitura da missiva. Acreditamos, e aqui expomos uma opinião puramente pessoal, que Kafka, enquanto exímio escritor, desejava colocar em palavras sua dor existencial, muito embora seja perceptível que sua existência estava marcada, e provavelmente fulminada, pelo jugo paterno, o que o teria privado de felicidade, paz e autoconfiança.

A educação paterna, à qual Kafta atribui sua falta de autoconfiança e seu sentimento de culpa inibiram e minaram sobremaneira suas empreitadas no sentido de firmar um matrimônio. Com efeito, o casamento era visto por Kafka não apenas como uma forma de distanciar-se de seu pai, mas também como um o maior êxito existencial que um homem poderia almejar. Sobre o casamento, Kafka diz textualmente que "casar, fundar uma família, aceitar todas as crianças que vierem, mantê-las neste mundo incerto e inclusive conduzi-las um pouco é, segundo minha convicção, o máximo entre todas as coisas que um home pode alcançar" (pág. 78, Carta ao Pai, Franz Kafka, Editora L&PM Pocket). Kafka dava ao casamento o status de uma autêntica libertação, algo que indicaria o seu amadurecimento e o colocaria no mesmo patamar existencial do pai.

Quanto aos assuntos matrimoniais Kafka não conseguia ter uma decisão madura, embora já contasse trinta e seis anos quando do episódio com Julie Wohrizek. Sua conduta ostentava traços de uma conduta até adolescente, onde há a necessidade de uma chancela paterna para se efetivar determinado ato. O natural seria esperar que uma pessoa nesta idade deliberasse e somente comunicasse uma decisão que seria de todo modo implementada, qualquer que fosse a receptividade, mas em Kafka era muito necessária a aprovação paterna, o que denota a absoluta imaturidade e falta de autoconfiança do escritor.

Neste aspecto, a percepção é a de que Kafka tinha o seu poder de decisão sobre questões diversas de sua vida tolhido e muito impactado pela presença massacrante do pai. O episódio envolvendo a notícia do noivado com Julie Wohrizek é bem significativo neste aspecto pois, claramente, a abordagem fria e até irônica do pai impediu que o filho prosseguisse naquele propósito matrimonial.

É sabido que a Carta ao Pai jamais foi entregue a Hermann Kafka, mas nem de outro modo ela foi lida, pois foi publicada apenas em 1952 (na revista alemã Die Neue Rundschau), sendo que o pai do famoso escritor tcheco morreu em 1931.

A obra não deixa de ser um verdadeiro tratado psicológico muito útil para se entender a relação pai e filho e como as circunstâncias pertinentes a este convívio podem impactar sobretudo a vida do filho. Aliás, cabe a um estudo psicológico profundo interpretar a absoluta influência e o imensurável domínio que Hermann Kafka tinha sobre Franz, a ponto de tolher de forma inquestionável todos os meandros da vida do filho.

Por fim, anotamos que a Carta ao Pai guarda uma diferença extrema em relação a toda a literatura de Kafka. Enquanto nas demais obras o autor trabalha com uma realidade absurda, distante, surreal em sua Carta há uma realidade nua, crua, fria e dolorosa. Se trata da obra mais realista, no sentido literal da palavra, do grande Franz.

Na arte, na literatura, na poesia e na música a dor muitas das vezes propiciou a criação de obras primas. A Carta ao Pai, de Franz Kafka, não deixa de ser uma comprovação desta tese.

* Obra lida - Carta ao Pai, dr Franz Kafka, editora L&PM Pocket.