"Minha atividade de escritor tratava de ti. Nela, eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto a teu peito".
Franz Kafka, em sua Carta ao Pai
Acredita-se que Franz Kafka
decidiu escrever a missiva, que seria eternizada na literatura universal como
"Carta ao Pai", depois de uma recepção indiferente do Sr. Hermann
Kafka ao filho, que na ocasião apresentava a noiva Juli Wohryzek, com quem almejava se casar.
A "Carta ao Pai" teria
sido escrita entre os dias 10 e 19 de novembro de 1919 e nela o autor de
"A Metamorfose", "O Processo" e outras obras eternas passa
a limpo uma relação intrincada, dolorida e permeada de sofrimentos e angústias
por parte de Franz Kafka.
A carta se estendeu por quase cem
folhas manuscritas e nela episódios da relação conflituosa são retratados desde
a tenra infância até a fase adulta do escrito tcheco.
Hermann Kafka foi um comerciante
judeu que prosperou em Praga, possibilitando à família uma condição
razoavelmente confortável. Denota-se pela obra ter uma personalidade forte, com
traços autoritários, mas com presença familiar e sentimento de cuidado e
responsabilidade, sobretudo material, quanto ao seio familiar.
Não se vislumbra, em sua relação
com a prole (Kafka tinha mais três irmãs), uma relação amorosa ou minimamente
afável. Conquanto tenha propiciado conforto material a relação de Hermann,
sobretudo com o filho Franz, revela-se incapaz de propiciar um mínimo conforto
espiritual ou emocional ao filho.
Transparece que o ser Franz Kafka
emerge perante seu genitor como uma pessoa desprovida de qualidades, de
méritos, inábil mesmo para seguir na atividade do comércio, onde muitos judeus
se destacam com primor (vem desta percepção de Kafka a sua "fuga"
para o direito e para a burocracia estatal).
A carta pode também ser vista
como um desabafo. Mas não um desabafo vulgar sendo, antes, um inventário
metódico e cronológico de uma relação frustrante e angustiante, sobretudo na
avaliação filial, onde cada evento relevante da relação pai-filho é pontuado e
enaltecida sua consequência deletéria à existência de Franz.
É notório como na obra Kafka faz
comparativos diversos entre ele e o pai, seja no aspecto físico,
comportamental, espiritual, psicológico sempre concluindo pela sua debilidade
diante da figura paterna, vista como forte e autoconfiante.
A palavra culpa é muito
recorrente na obra. Nela Kafka traduz toda a frustração por não corresponder a
qualquer dos anseios paternos com respeito à sua pessoa. Seja a sua atividade
de comerciante, seja sua compleição física, seja sua relação com o judaísmo
enfim, em nenhum aspecto a existência de Kafka se revela interessante aos olhos paternos. Tudo
relativo ao filho ganha antipatia do pai. Uma amizade ou uma relação social ou amorosa já
atrairia, para a pessoa com Kafka se relacionasse, a intensa aversão paterna.
Honestamente, não acreditamos que
Kafka tenha escrito a carta para entregar ao pai. A indiferença que o pai
nutria pela existência do filho impediriam o Sr. Hermann de consumir horas de
sua vida na leitura da missiva. Acreditamos, e aqui expomos uma opinião
puramente pessoal, que Kafka, enquanto exímio escritor, desejava colocar em
palavras sua dor existencial, muito embora seja perceptível que sua existência
estava marcada, e provavelmente fulminada, pelo jugo paterno, o que o teria
privado de felicidade, paz e autoconfiança.
A educação paterna, à qual Kafta
atribui sua falta de autoconfiança e seu sentimento de culpa inibiram e minaram
sobremaneira suas empreitadas no sentido de firmar um matrimônio. Com efeito, o
casamento era visto por Kafka não apenas como uma forma de distanciar-se de seu
pai, mas também como um o maior êxito existencial que um homem poderia almejar.
Sobre o casamento, Kafka diz textualmente que "casar, fundar uma família,
aceitar todas as crianças que vierem, mantê-las neste mundo incerto e inclusive
conduzi-las um pouco é, segundo minha convicção, o máximo entre todas as coisas
que um home pode alcançar" (pág. 78, Carta ao Pai, Franz Kafka, Editora
L&PM Pocket). Kafka dava ao casamento o status de uma autêntica libertação,
algo que indicaria o seu amadurecimento e o colocaria no mesmo patamar
existencial do pai.
Quanto aos assuntos matrimoniais
Kafka não conseguia ter uma decisão madura, embora já contasse trinta e seis
anos quando do episódio com Julie Wohrizek. Sua conduta ostentava traços de uma
conduta até adolescente, onde há a necessidade de uma chancela paterna para se
efetivar determinado ato. O natural seria esperar que uma pessoa nesta idade
deliberasse e somente comunicasse uma decisão que seria de todo modo
implementada, qualquer que fosse a receptividade, mas em Kafka era muito
necessária a aprovação paterna, o que denota a absoluta imaturidade e falta de
autoconfiança do escritor.
Neste aspecto, a percepção é a de
que Kafka tinha o seu poder de decisão sobre questões diversas de sua vida
tolhido e muito impactado pela presença massacrante do pai. O episódio
envolvendo a notícia do noivado com Julie Wohrizek é bem significativo neste
aspecto pois, claramente, a abordagem fria e até irônica do pai impediu que o
filho prosseguisse naquele propósito matrimonial.
É sabido que a Carta ao Pai
jamais foi entregue a Hermann Kafka, mas nem de outro modo ela foi lida, pois
foi publicada apenas em 1952 (na revista alemã Die Neue Rundschau), sendo que o
pai do famoso escritor tcheco morreu em 1931.
A obra não deixa de ser um
verdadeiro tratado psicológico muito útil para se entender a relação pai e
filho e como as circunstâncias pertinentes a este convívio podem impactar
sobretudo a vida do filho. Aliás, cabe a um estudo psicológico profundo interpretar
a absoluta influência e o imensurável domínio que Hermann Kafka tinha sobre Franz,
a ponto de tolher de forma inquestionável todos os meandros da vida do filho.
Por fim, anotamos que a Carta ao
Pai guarda uma diferença extrema em relação a toda a literatura de Kafka.
Enquanto nas demais obras o autor trabalha com uma realidade absurda, distante,
surreal em sua Carta há uma realidade nua, crua, fria e dolorosa. Se trata da
obra mais realista, no sentido literal da palavra, do grande Franz.
Na arte, na literatura, na poesia
e na música a dor muitas das vezes propiciou a criação de obras primas. A Carta
ao Pai, de Franz Kafka, não deixa de ser uma comprovação desta tese.
* Obra lida - Carta ao Pai, dr Franz Kafka, editora L&PM Pocket.
