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terça-feira, 31 de março de 2026

Impressões literárias (1) - O Processo Maurizius, de Jakob Wassermann (2)

Nesta obra o escritor alemão de origem judaica Jakob Wassermann tece um retrato frio, angustiante e doloroso do problema da justiça criminal.

Em aproximadamente 400 páginas percorremos o calvário que une sobretudo três existências. A do condenado injustamente Leonardo Maurizius, a do seu acusador, o procurador Wolfgang Andergast e de seu filho, o jovem e destemido Etzel Andergast.

A trama desenvolve-se a partir da inquietude de Etzel perante o pleitos do pai de Leonardo pela revisão do processo condenatório, pleitos estes sumariamente ignorados por Wolfgang. 

Diante do que se lhe apresenta como um clamoroso caso de erro judiciário o jovem de dezesseis anos abandona a casa paterna em busca da verdade. 

Nesta verdadeira saga encontra a personagem a nosso ver de maior relevância para o deslinde do caso, o professor Gregório Waremme (pseudônimo de Georges Waschauer, um intelectual judeu que adota outra identidade para minimizar as consequências nefastas do antisemitismo), cujo depoimento fora fundamental pela condenação de Leonardo.

De Waremme Etzel colhe um relato devastador, que comprova a injustiça da condenação e o erro judiciário que Wolfgang Andergast praticara.

O orgulhoso e vaidoso Wolfgang não revisa o processo e absolve Leonardo, se limitando a conceder um indulto, o que não afasta a condenação errônea.

O autor trabalha de forma virtuosa e com hábil sensibilidade o sofrimento existencial de Leonardo, explorando as consequências nefastas de seu envio injusto ao cárcere, o que desencadeia uma desconstrução progressiva de sua identidade, culminando com a transmutação do sujeito outrora feliz em uma figura vazia e insensível mesmo após sua libertação, a qual se deu por um indulto, e não por uma revisão do crime e uma absolvição.

O relato de Leonardo acerca de sua fatídica vida de encarcerado é primoroso levando o leitor a sentir lampejos dos suplícios a que um condenado criminalmente é levado a sofrer.

O leitor prescinde de conhecimentos jurídicos para vivenciar as reflexões que Wassermann busca impingir a que desbrava suas letras haja vista ser a injustiça um sentimento deveras humano e desde as primeiras página sentimos estar diante de um clamoroso caso de erro judiciário.

Conquanto os problemas, dilemas e falhas da justiça criminal sejam objeto de muitas obras literárias, o trabalho de Wassermann não encontra paralelo, sendo permeado por um certo fatalismo que acompanha toda a obra.

A obra fecha com notas melancólicas e lúgubres. Wolfgang confronta-se com a gravidade de seu erro e deprime-se diante do mal que perpetrara. Leonardo é um espectro, livre do cárcere, porém privado de vida, de alma, de alegria, de paz. Etzel não vê seus esforços culminarem com uma justiça, ainda que tardia. Enfim, no crepúsculo da obra não prevalece o sentimento de justiça feita, mas sim uma reflexão sobre a falibilidade moral humana e sobre dimensão dos danos que uma injustiça pode provocar sobre a vida humana, a ponto de anular uma existência.

O Processo Maurizius merece figurar dentre as grandes obras escritas no século XX e, quase um século após seu lançamento, merece ser lido, refletido, apreciado.

(1) Estas análises correspondem à minha visão da obra. Podendo por óbvio destoar das conclusões e reflexões que outros leitores ostentem após a leitura deste clássico.

(2) A obra lida é a versão da editora Abril Cultural, e foi publicada em 1982.

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